Gamificação, sala de aula invertida, mão na massa e Project-based learning: minha experiência prática em 2015.2

Gamificação, sala de aula invertida, mão na massa e Project-based learning: minha experiência prática em 2015.2

Neste semestre (2015.2), dei aulas para seis turmas dos cursos de Jornalismo e Publicidade: Mídia Digital (manhã e noite), Telejornalismo, Produção em Vídeo (manhã e noite) e “Produção e Edição em TV”. Foi pesado conciliar tudo isso com a coordenação do Canal Unigranrio, principalmente no estúdio de TV. Nesse período ainda consegui entregar minha dissertação de mestrado na UERJ e viajar para Gana e os Estados Unidos.

Apesar de tudo, foi possível ampliar as metodologias ativas que experiementei com minhas turmas no primeiro semestre. Saiba mais em: Gamification e mídias sociais na educação: algumas experiências práticas em 2015.1.

Vou listar aqui as ações de 2015.2:


 

Desenvolvimento de projetos pessoais (Project-based learning)

Para ativar o engajamento dos alunos nas tarefas, os trabalhos passados ajudavam a construir um único projeto durante todo o semestre, numa estratégia de “Project-based learning”. As turmas de Mídia Digital criaram Startups e, para tal, desenvolveram aplicativos, sites, apresentações interativas e modelos de negócio. Já as turmas de audiovisual criaram o programa piloto de canais no YouTube (roteiro, gravação e edição).

O foco principal é permitir que o estudante continue o projeto visando a empregabilidade, seja por meio da criação de um portfólio com os trabalhos entregues ou pela possibilidade de empreender com os projetos gestados em sala de aula.

Vários alunos já deram o passo seguinte, planejando a gravação do segundo episódio do seu canal no YouTube ou inscrevendo suas startups em concursos que propiciam ajuda financeira.


Mão na massa (Hands-on)

As aulas expositivas são comprovadamente pouco eficientes para fixação das informações, por isso optei por passar apenas as orientações principais para a produção dos trabalhos, forçando os alunos a buscarem outros dados necessários à entrega. Se gastasse o tempo em sala explicando tudo na frente da turma, ninguém entenderia nada e não conseguiriam finalizar seus projetos.

As turmas de audiovisual criaram roteiro e gravaram um curta durante as aulas. Cada grupo ficava responsável por uma cena. Depois, editavam o material no laboratório. Durante todo o processo, acompanhava e orientava os alunos a partir de suas dúvidas. Já a classe de Telejornalismo produziu um telejornal completo com links ao vivo, previsão do tempo, entrevistas e reportagens.

No caso de Mídia Digital, fizemos em sala de aula apenas o básico sobre desenvolvimento de aplicativos e sites, gerando uma mobilização para buscarem outras informações a fim de concluir o projeto.


Treinamento para as Olimpíadas

Um ponto alto desse semestre foi conseguir trazer para a Unigranrio o treinamento oficial de universitários para trabalho remunerado na transmissão dos Jogos Rio 2016. O processo de seleção animou os estudantes que se empenharam nas aulas extras promovidas no laboratório de TV.

O BTP (Broadcast Training Programme), treinamento oficial da OBS (Olympic Broadcasting Service), trouxe para o campus Duque de Caxias um caminhão de gravação dos mais modernos, além de profissionais estrangeiros com experiência em grandes eventos esportivos por todo o mundo. O principal deles é Jim Owens, diretor da escola de Comunicação e Arte da Asbury University. Seus livros são referência global em produção audiovisual.

123 estudantes da Unigranrio passaram pela experiência prática do BTP e em 2016 terão a oportunidade de trabalhar nas Olimpíadas.


Gamification (quiz e concurso)

A gamificação é sem dúvidas a melhor estratégia para engajamento nas tarefas. Mantive um quiz com 5 perguntas após as aulas até a primeira avaliação. A cada semana, divulgava o ranking com os primeiros colocados na disputa, que além de pontos na média final, ganhavam chocolates como premiação.

Os quizzes ajudavam a relembrar o assuntos abordados no encontro anterior e a criar uma dinâmica de “sala de aula invertida”, em que os estudantes buscam informações fora do tempo de aula para aplicação durante os encontros presenciais.

As apresentações dos trabalhos finais aconteceram no formato de concurso, em que cada grupo competia com os demais pelas primeiras colocações. Os vencedores ganharam troféus como premiação.


Visibilidade a trabalhos de aula

Em geral, o acesso aos trabalhos passados em aula fica restrito a alunos e professores, um grande desperdício. Neste período, minhas turmas de audiovisual e mídia digital apresentaram seus trabalhos finais no auditório da universidade para uma banca composta por profissionais da área. Só isso gerou maior engajamento na produção dos mesmos.

A visibilidade do trabalho gera um compromisso, já que ninguém gosta de receber críticas públicas. Quando estimulava a avaliação coletiva dos trabalhos anteriores, os estudantes ficam constrangidos em criticar seus colegas. Através de uma banca externa, a avaliação aconteceu no sentido do aprimoramento dos projetos e com menor relação à nota final, o que é o menos importante neste processo.

Nas turmas de audiovisual, os filmes foram vistos por cineastas profissionais, entre eles Cacau Amaral, co-diretor do filme “5x Favela: Agora por nós mesmos”, de Cacá Diegues. Já as turmas de mídia digital apresentaram suas startups para o SEBRAE, principal instituição de apoio ao empreendedorismo no Brasil.


 

Visitas a empresas e participação em eventos

Sair do ambiente da sala de aula é fundamental para animar os estudantes durante uma cansativa relação de um semestre. As visitas externas e a participação de eventos da área ajudam a quebrar essa monotonia dos encontros na própria universidade.

A TV Brasil foi a emissora escolhida para os estudantes de audiovisual e telejornalismo. Lá, viram a transmissão ao vivo de um telejornal direto do estúdio e do switcher (sala de controle), além de participarem de um programa da Rádio MEC AM.

Os estudantes de Mídia Digital participaram do seminário cultural promovido pela Braskem, uma das maiores empresas da cidade. O evento, mediado pelo próprio professor, contou com a presença do Ministério da Cultura e da Secretaria Estadual de Cultura.

Todos os alunos ainda tiveram a oportunidade de participar da palestra com a equipe do canal Parafernalha, o segundo com mais assinantes do YouTube brasileiro, só perdendo para o Porta dos Fundos.


Problemas

  • Essas metodologias exigem grande tempo de dedicação do professor pré e pós aula. O planejamento das tarefas demanda mais tempo e a sistematização dos dados dos quizzes também. Além disso, o acompanhamento dos projetos acontece o tempo todo, o que requer disponibilidade para sanar dúvidas de estudantes a qualquer momento.
  • Os prêmios saem do bolso do próprio professor. Como as universidades ainda não incorporaram as dinâmicas de gamificação ao ensino formal, os gastos com troféus e doces não são considerados fundamentais da mesma forma que folhas de papel e canetas para o quadro.
  • Alguns estudantes encaram as metodologias ativas como uma “enrolação” do professor por entender que aula é sinônimo de palestra. Tirar esses alunos da passividade é um grande desafio, ainda mais numa universidade particular onde há a visão, por parte de alguns alunos, de que estão comprando o conhecimento dado pelos professores. Convencer de que na verdade o processo é de construção do conhecimento é algumas vezes uma tarefa difícil, especificamente no ensino formal. No meu caso, após vencer o concurso “Professor Incrível”, esses poucos alunos passaram a olhar com outros olhos as dinâmicas implementadas. O fato de ter a metodologia de aula premiada pela reitoria ajudou a quebrar essa barreira.
  • A quantidade de turmas dificultou a implementação de algumas ações para todos, como visitas e participação em congressos. Da turma da manhã de Mídia Digital, poucos participaram do seminário da Braskem, realizado nos turnos da tarde e da noite. Já a turma da noite de Produção em Vídeo não conseguiu visitar a TV Brasil. No geral, esse problema ocasionou menor engajamento nos projetos.
  • A baixa auto-estima de estudantes da Baixada Fluminense dificulta em alguns momentos a mobilização para as tarefas, exigindo mais esforço do professor. Pelo estigma da inferioridade da região, alguns alunos não se sentem capazes de produzir algo relevante e competir em igualdade com universitários do Rio de Janeiro. Senti isso com mais intensidade durante o treinamento para as Olimpíadas (BTP), no qual houve desistências durante o processo de seleção. Alguns estudantes nem esperaram o resultado final e abandonaram o treinamento antes do fim, mesmo sabendo que os selecionados iriam ganhar uma bolsa de R$ 5 mil e que havia mais de mil vagas abertas, com grande possibilidade de contratação.

Perspectivas para 2016

A ideia agora é possibilitar que essas ações se solidifiquem, gerando maior confiança por parte dos alunos e facilitando o trabalho do professor em implementar as metodologias. O programa de startups ganhou o nome “Startup BF”, com o qual será possível dar mais visibilidade à apresentação, assim como continuar os projetos dos alunos pós disciplina.

O ministro de Ciência, Tecnologia e Inovação, Celso Pansera, disse, durante visita à Unigranrio, que vai apoiar a transformação do “Startup BF” em uma incubadora de empreendedorismo. A FINEP financia diversas iniciativas em todo o país e a Baixada Fluminense precisa muito desse tipo de proposta, já que a empregabilidade dos cursos criativos (publicidade, jornalismo, marketing e design) está muito ligada ao empreendedorismo.

No meio dessa correia toda, visitei algumas das melhores universidades dos Estados Unidos junto com o reitor da Unigranrio. Lá, conheci diversas metodologias inivadoras, as quais pretendo implementar em 2016.

3 Comentários

  1. Arthur, meus parabéns pelo seu trabalho, você é um dos poucos que vemos que se dedica tanto ao seu trabalho e com isso você tem colhido muitos frutos, e nós também! Gostei muito da postagem!
    Beijo
    Taíssa Ribeiro

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  2. Tudo que é novo assusta um pouco, acho que foi isso que alguns alunos sentiram com a nova metodologia, mas, depois de passado o susto pude me divertir fazendo os trabalhos, acredito que os outros alunos também. O que eu não assimilei em sala ou não vi, aprendi na rua com as gravações para o curta – indo atrás de pessoas para participar do filme, pegando equipamento emprestado sem saber bem como usar, lidando com desistências de pessoas que não desmarcavam ou sumiam e, contratempos no geral. Confesso que em alguns momentos essa sensação de inferioridade batia , mas se acreditarmos que somos capazes, mesmo com menos recursos, não cogitamos desistir e sim correr ainda mais atrás. Esse foi o principal aprendizado : correr atrás para transformar a ideia em algo real.
    Obrigada, professor, pelo “empurrão.

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  3. Cara você não passa simplesmente conhecimento, você da base pra ideias malucas se tornarem projetos incríveis! Tenho que agradecer tudo que fez por nós e dizer que você mudou a forma de todos nós criarmos. Eu posso dizer que essa metodologia de ensino super funciona, Parabéns.

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